• Júlia Chaves

O Casarão Eclético Demolido


No último dia 18 de Maio, os potiguares acordaram com a triste notícia da demolição repentina de mais um patrimônio arquitetônico do Rio Grande do Norte. A edificação centenária, que foi subitamente derrubada na semana passada, estava localizada em uma das áreas mais movimentadas da cidade de Caicó e possuía uma história riquíssima, sendo palco de grandes eventos políticos locais por ser a residência do influente Coronel Celso Dantas. Com sua belíssima arquitetura em estilo eclético, o casarão se encontrava bem preservado e desta forma, contando a história da cidade através de seus traços há mais de um século. Infelizmente, são comuns casos como este de demolição de bens históricos com o objetivo de criar lojas ou centros comerciais padronizados, geralmente sem nenhum diferencial arquitetônico ou histórico. Por isso, diante deste triste acontecimento, a Quinta Potiguar de hoje busca contar a história deste Casarão Eclético com o objetivo mostrar o quanto perdemos como sociedade ao demolir este patrimônio histórico e como é possível ter progresso sem esquecer do nosso passado.


Fachada do Casarão Eclético - Fonte: Google Maps

O belíssimo casarão foi construído no início do século XX pelo Coronel Celso Dantas, com o objetivo de servir como residência urbana para sua família, pois o Coronel também era proprietário de outra edificação mais afastada da cidade, o famoso Sítio Penedo. Apesar da atual localização privilegiada, atualmente na esquina das movimentadas avenidas Coronel Martiniano e Celso Dantas, na época de sua construção existiam poucas casas ao redor e o casarão eclético ajudou a urbanizar o local, surgindo assim um novo bairro na cidade. O Coronel Celso Dantas foi uma figura de muita influência na região, pois ele foi o Intendente Municipal de Caicó, no início do século XX, além de juiz de paz, comerciante e dono do único banco da cidade na época. Dentre seus diversos feitos, podemos destacar a construção do primeiro campo de pouso de Caicó, onde desembarcou, pela primeira vez, o Governador Juvenal Lamartine. Acredita-se que nesta visita o governador se hospedou no casarão, pois era no casarão eclético onde o Coronel Dantas recebia pessoas importantes para reuniões, jantares e bailes. Após a morte do coronel em 1949, a edificação foi vendida para empresária Marieta Costa, que a manteve preservada e conservada até sua venda. Infelizmente, na última semana, o novo proprietário demoliu a edificação histórica sem consultar as autoridades públicas, o que culminou no embargo da obra apesar da destruição total do patrimônio.


Detalhes - Fonte: Neri, 2021

O Casarão sempre se destacou no urbanismo de Caicó pela imponente arquitetura eclética, sendo considerada uma das "[...] fachadas mais bonitas da cidade" (Gregório, 2021). Com mais de um século de história, a edificação foi muito bem preservada e manteve seus traços arquitetônicos originais, não sofrendo descaracterizações, algo que a consolidava como valiosa representante da história caicoense e potiguar. O estilo arquitetônico eclético do casarão é caracterizado pela mistura de estilos passados que se popularizou no Rio Grande do Norte do início do século XX, simbolizando uma época de expansão e modernidade de um país recém republicano. Nós já falamos aqui no Quinta Potiguar sobre diversos exemplares desta arquitetura no RN, como o Palacete da Viúva Machado, o Solar Bela Vista, o Palácio Felipe Camarão, Residência Alves, entre outros. Dentre os elementos ecléticos do Casarão caicoense podemos destacar o recuo ajardinado em relação à residência vizinha, entrada pela lateral, cobertura escondida por platibanda decorado apresentando linhas orgânicas e pináculos, decoração geométricas feitas em massa nas fachadas, falsas colunas decorativas, linhas verticais predominantes e edificação mais elevada em relação à rua.


Elementos arquitetônicos ecléticos - Fonte: editado pela autora

Edificação demolida - Fonte: Instagram @mocotopia

Portanto, a edificação era um típico exemplar original da arquitetura eclética que possuía um enorme valor histórico e arquitetônico e por isso sua demolição levantou uma enorme e necessária discussão sobre as políticas de preservação e conservação do patrimônio material e imaterial do estado e a responsabilidade dos cidadãos de proteger seus bens. A Arquiteta e Urbanista caicoense, Lívia Nobre, em sua revista Arcaicó, acredita que é necessário lembrar que o patrimônio histórico representa "a história dessa cidade e de seus moradores. Tal qual um marco histórico europeu é importante para a humanidade, nossos prédios e nossa cidade são importantes para nós, pois são o registro concreto da nossa história e dos nossos costumes." (Oliveira, 2015) Edificações como este casarão eclético carregam em seus traços grande significado social, histórico, artístico e arquitetônico para seu povo e são portadores “[...] de uma mensagem do passado, mas que só tem sentido se for usufruído no presente [...]” (CARSALADE, 2013). Sem dúvida, sabemos que as necessidades da sociedade mudam ao longo do tempo e muitos dos usos dados as edificações perdem o sentido no presente, geralmente resultando no abandono do bem patrimonial. Em virtude disto, buscando ressignificar o uso da edificação sem descaracterizar ou perder as suas valiosas características históricas, existem diversas soluções arquitetônicas apontadas por profissionais capacitados que conseguem aliar a restauração com a reabilitação para um novo uso do bem patrimonial. A conservação de um bem histórico não é algo estático, como alguns acreditam, mas sim, pode ser a combinação do respeito histórico com a funcionalidade e progresso da atualidade. O uso é a finalidade da arquitetura e as edificações precisam se manter funcionais, mas isto não impede que possamos aliar o passado do nosso patrimônio com as necessidades do presente. No Rio Grande do Norte temos diversos exemplos bem sucedidos de reuso de edificação histórica, como por exemplo o Casarão 479 da 2A Engenharia, o Centro de Turismo de Natal, a Casa Pe. João Maria, entre outros.

Em conclusão, o Casarão Eclético de Caicó possuía um grande valor histórico e arquitetônico para o Rio Grande do Norte, sendo por mais de um século, um exemplar vivo do nosso passado e de nossa arquitetura. A demolição de um bem tão importante para os potiguares fica ainda mais dramática quando percebemos que existem meios arquitetônicos concretos para adequar uma edificação histórica às necessidades atuais, sem destruir seu legado histórico. Deixamos aqui a reflexão sobre a enorme perda que tivemos semana passada e aproveitamos para destacar que o "antigo" não é inimigo do progresso, mas sim uma ferramenta para alcançá-lo, pois "Um povo que não conhece sua História está fadado a repeti-la" (Edmund Burke, s.l.) Não deixemos mais que destruam nossa história, PRECISAMOS PRESERVAR NOSSO PATRIMÔNIO !!!


Um agradecimento especial ao Professor Dr. Renato Medeiros, neto do Coronel Celso Dantas, que disponibilizou informações essenciais para a elaboração deste texto.

 

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