• Júlia Chaves

O Grande Hotel


Construído no final da década de 1930 com uma arquitetura imponente, arrojada e moderna para os padrões da época, o Grande Hotel atingiu seu ápice quando se tornou o centro do enorme crescimento econômico e cultural em Natal durante a participação da cidade na Segunda Guerra Mundial. A edificação com localização estratégica, na esquina da Av. Duque de Caxias com a Praça José da Penha, abrigou além dos soldados americanos várias personalidades importantes nacionalmente e internacionalmente, sendo o primeiro Hotel a impulsionar ativamente o turismo no estado potiguar. Por causa de sua importância história, arquitetônica e cultural, a edificação foi tombada na década de 1990 e hoje encontra-se de forma geral preservada, em uso e nos agraciando com sua belíssima arquitetura. Desta forma, o imponente Grande Hotel é o tema da nossa Quinta Potiguar de hoje.

Com o início da popularização do avião no século XX, Natal passou a ser um ponto importante de escala entre os viajantes provenientes das cidades mais distantes do Brasil que se dirigiam à Europa ou à América do Norte e vice e versa. Os pousos de hidroaviões no Rio Potengi traziam cada vez mais visitantes a cidade e logo ficou claro que os únicos cinco hotéis de pequeno porte já existentes estavam obsoletos para a nova realidade. Diante deste cenário, surgiu ainda na década de 1920 a necessidade de construção de um grande hotel que trouxesse o conforto e tamanho adequado para a demanda. Porém, foi apenas em 1935 que o Governo do Estado disponibilizou verbas e desapropriou um terreno para o desenvolvimento o projeto. O terreno possuía uma localização estratégica para a construção de um empreendimento hoteleiro, por estar numa das principais avenidas da Ribeira, a Av. Duque de Caxias e próximo ao porto e à estação ferroviária da cidade. Porém, infelizmente, no local desapropriado havia uma edificação histórica que segundo o historiador Câmara Cascudo era “[...]mais bonita casa da Ribeira” (Câmara Cascudo in Farias, 2005) e esta foi demolida rapidamente para dar lugar ao novo empreendimento que iria trazer “o progresso” para a cidade. O projeto foi assinado pelo arquiteto francês Georges Henry Munier e trazia a modernidade em seus traços através de 76 apartamentos dispostos em forma curva e imponente. A inauguração do Grande Hotel aconteceu em 13 de maio de 1939, sendo posteriormente arrendado pelo empresário Theodorico Bezerra que possuía grande experiência no ramo da hotelaria pois já era dono dos outros pequenos hotéis da cidade. Nos primeiros anos de funcionamento, o número de hóspedes aumentava lentamente até que em 1942 a cidade de Natal foi escolhida como base militar dos Aliados na Segunda Guerra Mundial e isto fez com que os quartos do Grande Hotel fossem totalmente ocupados pelos militares americanos que se posicionaram na cidade e procuravam conforto em sua estadia. Desta forma, a Ribeira e, consequentemente, o Grande Hotel se tornaram o centro de uma época de grande intercâmbio cultural, assim como crescimento econômico e comercial na cidade. De acordo com o historiador Adriano Medeiros (2021), neste período o hotel chegou ter em suas dependências o Cassino Natal e abrigar hóspedes famosos como o ator Hollywoodiano Humphrey Bogart e militares brasileiros de alto escalão como Eurico Gaspar Dutra, entre outros. Sendo assim, o Grande Hotel virou símbolo da Segunda Guerra em Natal e até os dias atuais a sua imagem está associada a este período da história.

Grande Hotel na década de 50 - Fonte: Farias, 2005

Com o fim da Segunda Guerra em 1945, as tropas américas deixaram a cidade, o que normalmente ocasionou em uma diminuição brusca no comércio e economia da região, assim como na quantidade de clientes do Grande Hotel. Posteriormente, outros polos turísticos começaram a ganhar destaque e atrair hóspedes para outras regiões na cidade como a orla marítima próxima ao Forte dos Reis Magos, onde foi construído o revolucionário Hotel Reis Magos, no qual já falamos sobre ele aqui no Quinta Potiguar, a Via Costeira e seus inúmeros hotéis e Ponta Negra. Em 1987, o empresário Theodorico Bezerra retornou a posse da edificação para o Estado do Rio Grande do Norte e o prédio se tornou a sede da Empresa de Promoção e Desenvolvimento do Turismo do RN, EMPROTURN. Dois anos após, em 1989, a edificação passou a abrigar o Tribunal de Justiça do Estado e foi neste período que sofreu grande reforma e alterações para se adequar ao novo uso (Medeiros, 2021). Em 1991, a edificação foi tombada a nível estadual por ser um marco na história do RN. Atualmente, a edificação continua a funcionar como repartição pública abrigando o Juizado Especial Central da Comarca de Natal e não é possível visitar o seu interior.

O Grande Hotel hoje - Fonte: Google Street View, 2019

Quanto à arquitetura o Grande Hotel foi construído seguindo o movimento estilístico que acabava de surgir no Brasil e no Rio Grande do Norte, o Art Decó ou o protomodernismo. Este estilo simbolizava a modernidade e o avanço e eram justamente estas as necessidades da sociedade natalense da época, o que levou ao arquiteto Georges Henry Munier a projetar sabiamente de acordo com este estilo. O Art Decó se inspira na fauna, flora, culturas antigas, linguagem clássica e em máquinas, principalmente navios e suas formas curvas. Na Quinta Potiguar nós já falamos sobre o Cine Rio Grande e o Colégio Marista de Natal, edificações históricas potiguares que também compartilham deste estilo arquitetônico. Quanto ao Grande Hotel podemos destacar a simetria, a grande forma curva da edificação que proporciona uma visão panorâmica da fachada em relação ás ruas, entrada principal pela esquina, edificação elevada em relação a rua, marquise de concreto no térreo que acompanha todo o comprimento da fachada, sacadas curvas nas janelas centrais e das extremidades dos andares superiores que lembram sacadas de navios, predominância de cheios sobre vazios, janelas retas e pequenas, paredes lisas sem nenhum adorno e platibanda reto e sem adorno que esconde a cobertura e acompanha a curvatura da fachada.


Explicando os elementos arquitetônicos - Fonte: editado pela autora

Em suma, o Grande Hotel se consolidou com um símbolo da Segunda Guerra Mundial em Natal e do início do turismo no Rio Grande do Norte, por isso, possui uma enorme importância histórica e arquitetônica para o nosso estado. Algumas intervenções e alterações em sua arquitetura não descaracterizaram esta edificação que felizmente resiste ao tempo bem conservada, em uso e tombada como Patrimônio Histórico Potiguar, contando em seus traços a nossa história. NÓS PRECISAMOS VALORIZAR E PRESERVAR O NOSSO PATRIMÔNIO!


 

Fontes:

  • FARIAS, Hélio Takashi Maciel de. GRANDE HOTEL DE NATAL: registro histórico-memorial e restauração virtual. 2005. 156 f. TCC (Doutorado) - Curso de Arquitetura e Urbanismo, Centro de Tecnologia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal/Rn, 2005.

  • IPATRIMONIO (org.). Natal – Grande Hotel. Ipatrimônio, Natal. Disponível em: http://www.ipatrimonio.org/natal-grande-hotel/#!/map=38329&loc=-5.536711886793118,-34.470977783203125,9. Acesso em: 26 jan. 2022.

  • IZETTI, Rodrigo. O Grande Hotel. Histérica Ribeira, Natal, 22 nov. 2015. Disponível em: https://histericaribeira.wordpress.com/2015/11/22/o-grande-hotel/. Acesso em: 26 jan. 2022.

  • MEDEIROS, Adriano. Grande Hotel de Natal. Fatos e Fotos de Natal Antiga, Natal, 28 mar. 2021. Disponível em: https://fatosefotosdenatalantiga.com/grande-hotel-de-natal/. Acesso em: 26 jan. 2022.

  • FERNANDES, Prof. Matheus Barbosa do Nascimento. O Grande Hotel. Natal, Natal, 17 jan. 2020. Disponível em: https://www.nataldasantigas.com.br/blog/o-grande-hotel. Acesso em: 26 jan. 2021.

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