• Júlia Chaves

Cine Rio Grande


O Cine Rio Grande foi um cinema muito conhecido e um popular ponto de encontro para os potiguares entre a década de 1950 e 1990. Sua construção, em 1948, trouxe modernidade para a região, tanto por apresentar equipamentos novíssimos que exibiam os melhores e mais novos filmes da época, como por sua arquitetura arrojada inspirada no Art Decó. Com a diminuição do seu público na década de 1990, a edificação teve outros usos até fechar as portas por alguns anos. Atualmente, o prédio é utilizado como uma Igreja Evangélica, que felizmente respeitou e preservou os traços arquitetônicos originais. Além disso, por sua enorme importância artística, cultural, histórica e arquitetônica, existe desde 2013 um grande movimento para o tombamento da edificação. E é por isso que o Cine Rio Grande é o tema de hoje da nossa Quinta Potiguar.

Localizado na esquina com a Avenida Deodoro da Fonseca e a antiga Praça Pio X, posteriormente a Catedral Nova, o Cinema Rio Grande foi símbolo da modernidade do estado e um famoso ponto de encontro para a população potiguar por diversas gerações. A edificação começou a ser construída no ano de 1948 pelos sócios Otacílio Maia, Rui Moreira Paiva, Raul Ramalho e João Mascena (SEMURB, 2008) e no ano seguinte, mais precisamente em 11 de fevereiro de 1949, o Cinema Rio Grande foi inaugurado com a presença de várias personalidades potiguares, entre elas, o governador José Augusto Varela. Construído para abrigar uma função moderna, pois a sétima arte encontrava-se em ascensão na cidade principalmente após a Segunda Guerra Mundial, a arquitetura da edificação também acompanhou esta premissa e foi projetada de acordo com o estilo Protomoderno ou Art Decó que representava a renovação da arquitetura. Administrado pela empresa contratada J. A. Camarinha & CIA de Recife, o Cine Rio Grande foi um empreendimento muito próspero por mais de 30 anos, sendo um ponto de referência para a cidade e abrigando grandiosas plateias, entre 1.600 e 2.000 pessoas. Porém, no final da década de 1980, o cinema brasileiro como um todo começou a decair e não foi diferente os cinemas natalenses. Como forma de tentar se ajustar a este cenário, em 1991, por iniciativa de Moacyr Maia, a grande sala de cinema do Rio Grande foi dívida em duas menores, criando assim o Cinema Rio Verde 1 e 2. Posteriormente, em 1995, foi aberto uma boate na edificação que chegou a reunir mais de 400 pessoas em seu interior, além disso existem alguns registros de que funcionou no local também uma sorveteria, um bar e uma bomboniere neste período. Em 1999, o Cinema Rio Grande fechou oficialmente as portas e a edificação ficou abandonada por aproximadamente 10 anos até ser alugada pela Igreja Internacional da Graça de Deus. Felizmente, a nova função respeitou e preservou a belíssima arquitetura original do prédio. Em 2013, o cineasta Buca Dantas iniciou uma campanha para o tombamento desta edificação histórica com o objetivo de garantir a preservação e a integridade física da mesma. Certamente, esta campanha tem o apoio da população, entre eles o arquiteto Leonardo Flor, pesquisador do Art Decó em Natal, que em entrevista para a Tribuna do Norte (2013) atesta que o Cine Rio Grande é “[...] um prédio de grande importância histórica e Cultural” e que “[...] A cidade não pode apagar sua memória, construções como a do Cine Rio Grande que são símbolos de uma época” (in Silva, 2013). Atualmente, existe uma petição online no site Avaaz que conta com mais de 1.700 assinaturas a favor do tombamento da edificação, justificada por sua importância histórica, cultural e arquitetônica (para os interessados, o link da petição pode ser acessado aqui). A edificação continua sendo um templo religioso até os dias atuais.

Edificação do Cine Rio Grande atualmente como Igreja Evangélica - Fonte: Google Street View, 2019

Quanto à arquitetura, o Cine Rio Grande foi projetado com forte influência do estilo Art Decó, também conhecido por alguns estudiosos como o estilo protomoderno. Este estilo simbolizava a modernidade e renovação da arquitetura e ganhou força no Rio Grande do Norte na década de 30 e 40, principalmente, após a Segunda Guerra Mundial. O estilo se inspira na fauna, flora, culturas antigas, linguagem clássica e em máquinas, principalmente navios. Este último, aparenta ser a principal inspiração para o projeto do Cinema, onde, do ponto de vista entrada, é possível perceber a semelhança da edificação com a proa de um navio. Desta forma, podemos destacar nesta edificação a entrada pela esquina com acabamento circular, encimado por grande marquise que acompanha a curvatura da entrada, grandes elementos geométricos verticais que destacam a entrada e lembram mastros de navios, janelas retas e finas, além de janelas arredondadas que lembram escotilhas, pilastras circulares e marquises arredondadas na lateral, que também lembra a composição de navios, predominância de cheios sobre vazios, linhas retas, destaque para a base da edificação através de cores contrastantes, utilização de elementos vazados para ventilação e proteção ao sol e cobertura escondida por platibanda corrido.

Elementos arquitetônicos - Fonte: editado pela autora

Em conclusão, o prédio do Cine Rio Grande é uma importante edificação para o Rio Grande do Norte por apresentar uma grande relevância artística, cultural, histórica e arquitetônica para a região. Felizmente, os seus traços originais resistiram ao tempo e a mudança de uso, consolidando a edificação como um templo do Art Decó em Natal. A história de milhares de potiguares se confunde com a história desta edificação, sendo assim fundamental a sua valorização e reconhecimento como Patrimônio Potiguar. Não deixemos que mais este exemplar da nossa história seja perdido, NÓS PRECISAMOS PRESERVAR E VALORIZAR NOSSO PATRIMÔNIO!!


Edifício do Cine Rio Grande abandonado nos anos 2000 - Fonte: Flick, s.d.
 

Fontes:

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