• Júlia Chaves

Ruínas da Igreja de Santa Rita de Cássia - Pedro Velho/RN



Você sabia que por causa de uma enchente provocada por um rio, uma vila do Rio Grande do Norte foi totalmente devastada e abandonada? Você sabia que a Igreja desta vila abrigou e protegeu a população, sendo a única edificação preservada do local? Esta é a história da Vila de Cuitezeiras e da sua belíssima edificação remanescente, a Igreja Santa Rita de Cássia. Em 1861, foi fundada ás margens do Rio Curimataú a Vila de Cuitezeiras. No mesmo ano foi construída a Igreja Santa Rita de Cássia, originando o povoado no seu entorno. Após um período de grande prosperidade na região, em 1901 os habitantes da Vila foram acordados com as águas da grande enchente do Rio Curimataú, que devastou a cidade. Felizmente, a Igreja Santa Rita de Cássia foi poupada da tragédia e pode abrigar os habitantes da região. Os belíssimos traços arquitetônicos coloniais e barrocos ainda podem ser parcialmente apreciados, pois a edificação encontra-se em avançado estado de degradação, sendo atualmente classificada como ruína.

Fachada Igreja Santa Rita de Cássia - Fonte: Easy Tour Brasil

Em 1861, na margem esquerda do Rio Curimataú, local antigamente habitado pelos índios paiaguás, foi fundada a Vila de Cuitezeiras. A fundação foi feita com forte influência da tradicional família dos Afonsos, que neste mesmo ano, construíram a Igreja da vila em homenagem à Santa Rita de Cássia. No entorno desta, foram surgindo várias moradias, em sua maioria localizadas na Rua da Cruz, que ligava "[...] o antigo cruzeiro [da Igreja] à margem oposta do rio" (Jonas, 2013), cujos vestígios existem até os dias atuais. Em 1882, a Vila prosperava no cultivo do algodão, na agricultura e na pecuária, sendo conectada à "[...] Capital da Província através da Estrada de Ferro que até hoje liga Natal a Recife [...]" (Oliveira, 2015). Em 1890, o povoado tornou-se município independente e, de acordo com o Governo Municipal de Pedro Velho, era composto por "[...] 30 fazendas de criação de gado, 2 engenhos de açúcar e 2 descaroçadores de algodão". Porém, em 13 de maio de 1901, os habitantes da Vila de Cuitezeiras foram acordados em suas casas pela invasão das águas do Rio Curimataú. A enchente tomou rapidamente a cidade, sendo a Igreja Santa Rita de Cássia, o único local respeitado. O templo religioso abrigou e protegeu a população no seu interior e por isso não houveram vítimas fatais, como podemos ver nos relatos dos habitantes no Diário De Pernambuco de 1901:


"[...] Da rua da Cruz, principio da vila, até a casa do cidadão Jacó, seu termino, todas as famílias abandonaram os lares inundados com águas pelos joelhos, em busca da igrejinha da gloriosa Santa Rita, único asilo respeitado pela enchente.

O pequeno templo não comportava a multidão, que enchia em brados de terror, em súplicas ferventes.

Salvas as famílias com grandes dificuldades, porque a impetuosidade da corrente era enorme sendo necessários muitas vezes quatro homens para o transporte de uma senhora ou uma criança, cuidou-se então, de escolher as mercadorias e moveis que flutuavam, grande parte já arrastados pelas águas.

O trabalho durou todo o dia e a noite, mas o prejuízo, foi ainda assim, de uma terça parte dos haveres da população.

A casaria, em geral, ficou arruinada, caindo totalmente alguns prédios.

A lavoura alcançada pela enchente perdeu-se por completo [...]"

(Santos, 2020)


Diante da destruição total do povoado e do receio da população de ser consumida por outra enchente, foi necessária a fundação de um novo povoado, desta vez situado em local seguro, à cerca de 2km do antigo núcleo urbano. Esta nova cidade recebeu o nome de Vila Nova e em 1908 foi renomeada para Pedro Velho, em homenagem ao republicano potiguar Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, falecido no ano anterior, sendo chamada desta forma até hoje.


Interior Igreja Santa Rita de Cássia - Fonte: Comtrilha, 2016

Da antiga Vila de Cuitezeiras, restam apenas as belíssimas ruínas da igreja, que um dia salvou sua população, um antigo cemitério e a árvore Samaumeira, uma das maiores do RN, atualmente, pontos turísticos do município. Quanto à arquitetura, a Igreja Santa Rita de Cássia foi construída com base no estilo colonial, tendo influência do estilo barroco. Destacam-se em sua fachada a simplicidade dos traços arquitetônicos retos, a simetria, a presença de verga em forma de arco pleno na porta principal e as janelas retas na altura do coro. Já o frontão triangular com acabamentos arredondados e o óculo ornado com decorações ao centro são detalhes típicos da Igrejas construídas no século XIX, que já sofriam influências do movimento barroco. Sua planta baixa é retangular e simples, de nave única com capela-mor ao centro. Atualmente a edificação encontra-se em estado de ruína, sem cobertura e com paredes em avançado estado de degradação. Mesmo assim, ainda é utilizada pela comunidade local para a celebração de missas. Quem quiser ver com mais detalhes da belíssima arquitetura e do estado da edificação, assistam o vídeo feito pelo canal Fred Fonseca.


Elementos arquitetônicos - Fonte: edição da autora

As ruínas da Igreja Santa Rita de Cássia contam uma história de prosperidade, tragédia e superação, sendo um dos únicos vestígios da Vila de Cuitezeiras e do seu povo. Infelizmente, pouco se divulga sobre esta edificação de arquitetura única e tão importante para o Rio Grande do Norte, como se pode ver pelo avançado estado de degradação. Precisamos urgentemente de políticas de salvaguarda e preservação deste monumento para valorizar essa história tão única do nosso estado. VAMOS PRESERVAR NOSSO PATRIMÔNIO!



Missa celebrada nas Ruínas da Igreja - Fonte: Francisco Bezerril


 

FONTES:

Monografia:

  • CRUZ, Luana Honório. Os caminhos do açúcar no Rio Grande do Norte: o papel dos engenhos na formação do território potiguar. 2015. 312 f. Tese (Doutorado) - Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2015.

  • OLIVEIRA, Osmar Faustino de. EVOLUÇÃO ECONÔMICA DO MUNICIPIO DE PEDRO VELHO/RN. 2015. 60 f. Monografia (Especialização) - Curso de Ciências Econômicas, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal /Rn, 2015. Disponível em: https://monografias.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/1927/1/Evolu%C3%A7%C3%A3oecon%C3%B4mica.pdf . Acesso em: 21 abr. 2021.

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