• Júlia Chaves

Museu Solar Ferreiro Torto


Localizado às margens do rio Jundiaí, em Macaíba, o Museu Solar Ferreiro Torto possui uma enorme importância histórica e é considerado um dos mais belos espaços públicos do Rio Grande do Norte. Acredita-se que a propriedade foi habitada primeiramente no início do século XVII, onde era conhecida pelo nome de Engenho Potengi. Em 1634, foi palco de um terrível massacre feito pelos holandeses contra os colonos do engenho, que resultou na destruição e abandono das edificações. Apenas no ano de 1845 foi construída a elegante edificação em estilo colonial que vemos hoje, chamada de Solar Ferreiro Torto. Desde então, foi residência de figuras ilustres da região até os anos de 1970, quando foi tombada e restaurada pela Fundação José Augusto. A partir daí foi museu de arte sacra, sede da Prefeitura de Macaíba e hoje funciona na edificação o Museu Solar Ferreiro Torto, onde através de seu acervo e arquitetura ajuda a contar a história de Macaíba e do Rio Grande do Norte. Além disso, o Engenho conta também a história da minha família, pois neste local residiram parentes meus diretos e é com muito orgulho que ajudo a disseminar o conhecimento sobre esta belíssima construção do RN.

Fachada Ferreiro Torto - Fonte: Luiz, 2013

O Ferreiro Torto abrigou o segundo engenho da capitania do Rio Grande, o chamado Engenho Potengi. Este engenho foi o primeiro marco colonial na cidade de Macaíba e destacou-se economicamente nesse período por causa do cultivo da cana-de-açúcar. Porém, em 1634, durante a dominação holandesa no RN, o engenho foi palco do primeiro massacre feito pelos holandeses aos colonos, onde teve como vítimas o capitão Francisco Coelho e cerca de outras 60 pessoas que moravam ali. Posteriormente, o mesmo ocorreria no Engenho Cunhaú, edificação que já foi tema da Quinta Potiguar. Após o massacre, a propriedade ficou abandonada até 1845, quando o Cel. Estevão José Barbosa de Moura herdou a propriedade de seu sogro, demoliu a antiga construção de taipa existente e construiu o belíssimo casarão com arquitetura colonial que conhecemos hoje. Essa nova edificação recebeu a denominação de Solar Ferreiro Torto. Acredita-se que a origem do nome seja por causa de um coqueiro muito alto e torto que tinha na porteira da fazenda e, quase embaixo dessa árvore, um ferreiro havia montado a sua tenda e oferecia os seus serviços aos tropeiros. O Solar serviu de residência para figuras ilustres da região até o ano de 1970 quando as terras foram desapropriadas pela prefeitura e a edificação foi tombada e restaurada pela Fundação José Augusto. Após a conclusão das obras de restauro, a edificação se tornou um Museu de arte sacra e entre os anos de 1983 e 1989 foi a sede da Prefeitura de Macaíba. Após um período de abandono, a propriedade abriga desde 2003 o Museu Solar Ferreiro Torto, que conta com um enorme acervo de fotografias que retratam a história política, social, econômica e religiosa de Macaíba.

Cel. Estevão Moura - Fonte: Lyra, 2010

As figuras ilustres que viveram no Solar Ferreiro Torto são um capítulo à parte na história desta edificação. A começar pelo proprietário responsável pela construção do solar colonial, o Cel. Estevão Moura. Presidente da Província do Rio Grande do Norte por 3 vezes, foi figura importante em Macaíba, entre outros feitos, por ter construído a primeira ponte sobre o Rio Jundiaí e uma estrada que ligava Natal à Macaíba. Após a sua morte, a propriedade foi herdada por sua filha D. Isabel Cândida de Moura Chaves, esposa do Dr. Francisco Clementino de Vasconcelos Chaves, que como o sogro também foi Presidente da Província do Rio Grande do Norte entre 1872 e 1873.

Dr. João Chaves - Fonte: Arquivo Próprio

Em 1875, D. Isabel deu a luz, no próprio Solar Ferreiro Torto, ao Dr. João Batista de Vasconcellos Chaves, meu trisavô, de quem muito escutei histórias através do meu avô Iung Chaves e minha mãe Quênia Chaves. Dr. João Chaves, formado em Direito, foi autor de vários livros como 'Sciencia Penitenciária' e conhecido por suas contribuições ao direito penal, sendo considerado "[...] um dos maiores criminalistas do Brasil de seu tempo" (Serejo, 2012). Atualmente é homenageado por dar nome a um presídio natalense e seus feitos podem ser vistos com mais detalhes no belíssimo texto do site Substantivo Plural. Por último, a propriedade foi vendida em 1914 para o comerciante Manuel Machado, que deixou para sua viúva, D. Amélia Duarte Machado, a conhecida Viúva Machado, empresária e proprietária de diversos imóveis no estado.

Quanto à arquitetura, as construções originais do Engenho Potengi, no século XVII, eram feitas de taipa e não resistiram às inúmeras batalhas ocorridas no local, sendo demolidas em 1845. Neste mesmo ano, ocorreu a construção do solar que vemos hoje, um confortável e elegante casarão. Sua arquitetura, provavelmente projetada pelo próprio Cel. Estevão Moura, é baseada no estilo colonial, sendo sua tipologia conhecida como casas pseudosobrado, por possuir o andar superior recuado em relação ao inferior. Quanto à planta baixa, tem por característica a simplicidade e o formado quadrangular com o interior decorado com mobiliário português no estilo manuelino. Também na fachada é possível ver elementos característicos do estilo arquitetônico colonial como simetria, linhas retas, simplicidade nos traços, telhado aparente, esquadrias coroadas com arcos e a presença de um andar superior, que indicava a riqueza e posição social de seus donos. Acredita-se que todo o material e ferragens utilizadas vieram diretamente da Europa.

Elementos arquitetônicos - Fonte: Editada pela autora

Com a finalidade de preservar este exemplar histórico-arquitetônico, a obra de restauro, feita em 1970, foi vital para que atualmente possamos apreciar os belíssimos traços arquitetônicos e a riquíssima história do solar, pois nesta época a edificação encontrava-se abandonada e em avançado estado de degradação. De acordo com o ex-prefeito de Macaíba Valério Mesquita (2017), as obras foram feitas "[...] no sentido de resguardar e/ou recompor as origens, a memória, as raízes, em qualquer sentido, apurados os fundamentos, o legado e a importância no contexto cultural de qualquer local, cidade ou povo" (2017). Atualmente, a edificação está sendo utilizada como Museu e aberta ao público, o que é fundamental para sua preservação, conservação e disseminação de sua riquíssima história.


Antes e depois da restauração do Solar - Fonte: Edição da autora

Em conclusão, o Museu Solar Ferreiro Torto é um exemplar belíssimo da arquitetura colonial brasileira e um disseminador da história do Rio Grande do Norte, com uma trajetória de lutas, figuras ilustres, arquitetura que simboliza uma época, abandonos e restauros. Felizmente, encontra-se em bom estado de conservação e com um uso de forma aberta ao público, o que nos torna agentes diretos de sua valorização e preservação. Fica aqui uma sugestão de visita após a pandemia, com o objetivo de conhecer melhor a nossa história.


"Conhecer a história do Solar Ferreiro Torto é conhecer um pouco da história de Macaíba e do Rio Grande do Norte. Visitar o museu nos leva numa viagem através dos anos. Nos faz conhecer histórias e relembrar personalidades. O solar é sem dúvidas um local único. Nele existe uma aura diferente de todos os lugares que já conheci [...]" Luiz, 2012


PRECISAMOS PRESERVAR NOSSO PATRIMÔNIO!

 

Fontes:

ASSECOM-PMM. Museu Solar Ferreiro Torto bate novamente recorde de visitas em 2019. Prefeitura de Macaíba, Macaíba, 08 jan. 2020. Disponível em: https://macaiba.rn.gov.br/noticias/4217/museu-solar-ferreiro-torto-bate-novamente-recorde-de-visitas-em-2019 . Acesso em: 06 abr. 2021.

LYRA, Anderson Tavares de. Perfis - Coronel Estevão Moura. História e Genealogia, Natal, 14 mar. 2010. Disponível em: http://www.historiaegenealogia.com/2010/03/perfis-coronel-estevao-moura.html . Acesso em: 06 mar. 2021.

LUIZ, Raphael. Solar Ferreiro Torto: palco de muitos acontecimentos históricos. Ensino Fotec Ufrn, Natal, 17 jun. 2013. Disponível em: https://ensinofotecufrn.wordpress.com/2013/06/17/solar-ferreiro-torto-palco-de-muitos-acontecimentos-historicos/ . Acesso em: 06 abr. 2021.

MESQUITA, Valério. LUTAS E ADVERSIDADES: valério mesquita. Ponto de Vista: com Nelson Freire, Natal, 07 nov. 2017. Disponível em: http://www.pontodevistaonline.com.br/lutas-e-adversidades-valerio-mesquita/ . Acesso em: 06 abr. 2021.

MUFPA. Obras Restauradas: coleção c.c.j (retratos de direito). Museu da Universidade Federal do Pará, Pará, 12 ago. 2010. Em: João Batista de Vasconcelos Chaves. Disponível em: https://mufpa.wordpress.com/2010/08/12/obras-restauradas-colecao-c-c-j-retratos-de-direito/ . Acesso em: 06 abr. 2021.

MUSEUS, Cnm - Cadastro Nacional de. Museu Solar Ferreiro Torto: nº sniic: es-7913. Mapas Cultura Gov, Brasil. Disponível em: http://mapas.cultura.gov.br/espaco/7913/ . Acesso em: 06 abr. 2021

SECOPA. Solar Ferreiro Torto: berço de macaíba. Press Point: Centro de Apoio à imprensa. Disponível em: http://www.presspoint.ufrn.br/index.php/pautas/250-solar-ferreiro-torto-berco-de-macaiba . Acesso em: 06 abr. 2021.

SEREJO, Vicente. Um livro faz cem anos. Substantivo Plural., Brasil, 23 jul. 2012. Disponível em: http://substantivoplural.com.br/um-livro-faz-cem-anos/ . Acesso em: 06 abr. 2021.

SILVA, Maria Adamires da. A lenda do Solar Ferreiro Torto. Patrimônio Imaterial do Rn, Natal, fev. 2015. Disponível em: https://patrimonioimateria.wixsite.com/patrimonioimaterial/solar-ferreiro-torto . Acesso em: 06 abr. 2021.

VICTOR, Paulo. ENGENHO DO FERREIRO TORTO: Fazenda 214. 10 abr. 2020. Publicada no Grupo Antigas Fazendas de café e os escravos. Facebook: @PauloVictor. Disponível em: https://www.facebook.com/fazendasantigas.face/photos/pcb.234361177924632/234358174591599/ . Acesso em: 09 abr. 2021.

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