• Júlia Chaves

Fortaleza dos Reis Magos

Atualizado: 18 de mar. de 2021

Um agradecimento especial ao meu bisavô Tarcísio Medeiros (In Memorian) e ao meu tio avô Ivoncísio Meira de Medeiros (In Memorian), pela dedicação à pesquisa da história Potiguar e à disseminação de seus conhecimentos através de seus livros, o que tornou possível o desenvolvimento deste artigo.


Forte dos Reis Magos 2021 - Fonte: Arquivo Próprio

A Fortaleza dos Reis Magos é a primeira obra arquitetônica do estado do Rio Grande do Norte. Com seus traços coloniais militares marcantes e localização estratégica, a edificação apresenta-se de forma imponente diante da cidade de Natal. Não é apenas sua beleza que se sobressai, mas sua história é igualmente rica e importante para os potiguares, pois foi a partir de sua construção que surgiram os primeiros povoados portugueses no RN, como a cidade de Natal. Diante dos seus 421 anos, esta fortificação é considerada o primeiro e maior símbolo arquitetônico do nosso estado. Hoje a Quinta Potiguar é dedicada ao início do nosso patrimônio arquitetônico.

Após o fracasso nas tentativas de povoamento da capitania pelos portugueses, o Rio Grande esteve abandonado desde então. Neste período, de acordo com o escritor Ivoncísio Meira de Medeiros (2014), os franceses se estabeleceram na região que conhecemos hoje como Genipabu e cada vez mais criavam relações diplomáticas com os índios nativos. Diante deste cenário, em 1596, o Rei Felipe II da Espanha e I de Portugal enviou ao Brasil uma Carta Régia onde estabelecia a necessidade da definitiva conquista da Capitania do Rio Grande "[...] expulsando-se o invasor, construindo-se um forte para a sua defesa e fundando-se uma cidade." (Medeiros, 2014).

A localização estratégica sob arrecifes na exata junção do Rio Potengi com o Mar Atlântico era perfeita para impedir a aproximação de qualquer possível invasor. Em 1597, começou a ser construída neste local, de acordo com o historiador Tarcísio Medeiros (2001) "[...] uma paliçada em forma de fortim, de pau-a-pique [...]". Após inúmeros ataques dos índios ficou clara a fragilidade desta edificação e 6 de janeiro de 1598 iniciou-se a construção da fortificação em alvenaria como conhecemos hoje. Devido a coincidência entre a data de início das construções e o dia de Santos Reis, a Fortaleza recebeu seu nome em homenagem aos Santos. Próximo ao Forte, em 25 de dezembro de 1599, Jerônimo de Albuquerque "[...] onde já existiam algumas moradas, demarcou o sítio da cidade que recebeu o nome de Natal, em honra desse glorioso dia [...] (Medeiros, 1973). Para os estudiosos, a Fortaleza foi determinante para a irradiação da colonização portuguesa em direção ao Norte.


Planta Baixa da Fortaleza em 1763 - Fonte: Medeiros,1973

O projeto da Fortaleza dos Reis Magos ficou sob responsabilidade dos padres jesuítas, Gaspar de São João Peres (arquiteto) e Francisco Lemos (Engenheiro) (Medeiros, 2014), sob o comando do Capitão-Mor de Pernambuco Manoel Mascarenhas Homem. A fortaleza possui estilo colonial militar, com planta em formato de estrela, sendo esta forma determinante nas estratégias de defesa. Segundo a arquiteta Maria de Fátima Medeiros (1999) o forte de alvenaria foi construído em etapas, iniciando-se pelo "[...] o revestimento das paredes externas com pedras [...] que daria maior segurança à Fortaleza. (E apenas) No início do século XVII, foi a vez das partes internas do Forte serem concluídas”. (1999) Alguns historiadores defendem que a fortificação foi concluída totalmente em 1630, porém, documentos do Arquivo Ultramarino de Lisboa, exibidos ao público em 1973 no livro Aspectos Geopolíticos e Antropológicos da História do Rio Grande do Norte, mostram que ainda no ano de 1633, diante da conquista da fortificação pelos holandeses, esta não se encontrava concluída.

Desembarque dos holandeses - Fonte: Medeiros, 1973

Em 12 de dezembro de 1633, com a invasão Holandesa, a fortaleza passou a se chamar Castelo de Ceulen ou Keulen, em homenagem ao General holandês Mathias Van Keulen e Natal passou a se chamar Nova Amsterdã (Medeiros, 1973). Este domínio durou 21 anos, mas não restam vestígios arquitetônicos dessa ocupação na fortaleza, nem sequer na Cidade de Natal, uma vez que durante este período, a Capitania do Rio Grande de nada interessava aos holandeses, apenas servia para "[...] o fornecimento de reses para consumo dos soldados de Pernambuco." (Medeiros, 2001). Em maio de 1654, o domínio português foi restaurado no Rio Grande, assim como o da Fortaleza. O Forte também serviu de prisão para os conspiradores da Revolução Republicana de 1817, destacando-se nesse período a morte de André de Albuquerque Maranhão no interior da edificação.

Obras de restauro no Forte - Fonte: Arquivo Próprio

A Fortaleza dos Reis Magos foi desativada de suas funções militares em 1904 e em 1949 foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), sendo restaurada de 1953 a 1958. Em 2013, o IPHAN realizou grande pesquisa arqueológica e histórica no local, o que resultou em um projeto de restauração da fortaleza. Atualmente, a edificação encontra-se interditada para obras de restauração e acessibilidade, que se iniciaram em 2018 com previsão de entrega para Maio de 2021, na qual falaremos posteriormente.

Em síntese, a Fortaleza dos Reis Magos possui enorme importância histórica e arquitetônica para o Rio Grande do Norte e para o Brasil. Marco do início da colonização portuguesa e do surgimento de povoados em terras potiguares, a fortaleza é símbolo do nosso estado. Desta forma, devemos conhecê-la para conseguir proteger e conservar esta edificação que nos presenteia com sua presença por mais de 400 anos.

"Tantos palmos de espessura e intervalos preenchidos por terra - são as muralhas. As obras ainda realizaram um edifício em dois pavimentos para diversos abrigos e capela e cisterna Armado de canhões de ferro e bronze adormecidos e paiol de pólvora, hoje vazio."

Gustavo Sobral, 2020


 

Fontes:

Livros:

MEDEIROS, Ivoncísio Meira de. Uma carta de Feliciano Coelho de Carvalho para sua majestade D. Felipe II. In: MEDEIROS, Ivoncísio Meira de. Contando Histórias: ensaios históricos e biográficos. 1. ed. Natal: Fundação José Augusto, 2014. p. 51-59. (Coleção Cultura Potiguar).

MEDEIROS, Maria de Fátima. Natal: patrimônio histórico e cultural. Natal/RN: Fuly Editora, 1999. 133 p

MEDEIROS, Tarcísio. Aspectos Geopolíticos e Antropológicos da história do Rio Grande do Norte. Natal: Imprensa Universitária, 1973. 276 p.

MEDEIROS, Tarcísio. Estudos de História do Rio Grande do Norte. Natal: Tipografia Santa Cruz, 2001.272p

SOBRAL, Gustavo. Cenas Natalenses. Natal: 8 Editora, 2020. 60 p.

Sites:

IPHAN. Forte dos Reis Magos - RN. Iphan: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/569/#:~:text=Ap%C3%B3s%20sofrer%20um%20grave%20processo,do%20Rio%20Grande%20do%20Norte. . Acesso em: 03 mar. 2021.

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