• Júlia Chaves

Casa de Câmara e Cadeia e Igreja N. Sra. do Desterro - Vila Flor













O município de Vila Flor é descrito pela Fundação Pró-Memória (1981) como detentor de "[...] um dos mais expressivos e autênticos documentos arquitetônico-urbanísticos do século XVIII." A sede do município é composta por uma praça central onde se encontram as importantes edificações históricas: a Igreja Nossa Senhora do Desterro e a Casa de Câmara e Cadeia. Estas edificações de arquitetura colonial foram construídas entre 1743 e 1745, quando Vila Flor ainda era a Aldeia Gramació. O município possui uma trajetória histórica que se inicia em 1700 com um aldeamento jesuíta, passa por um período econômico de destaque no Brasil colônia, posteriormente é abandonado e esquecido e na segunda metade do século XX é recuperado. Desta forma, Vila Flor conta a história potiguar e brasileira através de seus traços arquitetônicos e por esta importância é o tema de hoje do Quinta Potiguar.

No início do século XVIII, foi implantado na região leste do RN a Aldeia Gramació, uma pequena aldeia jesuíta sob a responsabilidade do Padre André do Sacramento. Posteriormente, entre os anos de 1743 e 1745, foram construídos o templo religioso e a edificação administrativa da localidade, sendo respectivamente conhecidas como a Igreja Nossa Senhora do Desterro e a Casa de Câmara e Cadeia. Poucos anos mais tarde, a aldeia foi elevada à condição de vila, onde recebeu o nome de Vila Flor, em homenagem a vila portuguesa localizada ao norte do país lusitano. Nos anos seguintes, a vila passou a destacar-se economicamente com a agricultura e a produção de cana-de-açúcar, mas inesperadamente, em 1858, ocorreu a expulsão dos jesuítas de Vila Flor e, após isso, a sede da região foi transferida para a vila de Uruá, atual Canguaretama. Em virtude deste acontecimento, a vila passou por um período de abandono e suas edificações históricas sofreram grandes deteriorações. A autonomia da cidade só foi retomada em 1963, quando Vila Flor voltou a ser um município independente. No ano seguinte, a Igreja e a Casa de Câmara e Cadeia foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) que deu início a um processo de restauro das edificações. Finalmente, em 1985, ambas foram reabertas ao público, que pode até hoje apreciar sua beleza e entender suas histórias.

Elementos arquitetônicos - Fonte: editado pela autora

A Igreja Nossa Senhora do Desterro foi construída pelo Frei André do Sacramento com o objetivo de substituir a antiga capela já existente no Aldeamento Gramació. As edificações religiosas eram as construções mais importantes dos núcleos urbanos coloniais, posto que eram o centro da vida social e administrativa da sociedade naquela época. Seguindo o estilo arquitetônico colonial, a Igreja possui uma planta-baixa simples com nave única, capela-mor e sacristia lateral. A fachada também é simples com traços retos, frontão triangular, simetria, porta única, janelas do térreo retas e janelas na altura do coro encimadas com arcos plenos. Segundo o arquiteto José Pessôa, a composição das linhas da fachada caracteriza a chamada arquitetura jesuítica que fez parte do estilo colonial.

Elementos arquitetônicos - Fonte: Editado pela autora

Quanto à Casa de Câmara e Cadeia, acredita-se que foi construída na mesma época da Igreja, pois apesar de não possuir documentação sobre sua construção, sabe-se que a edificação já existia no ano em que a Aldeia virou Vila, em 1768. Edificações deste tipo eram construídas para uso público e administrativo das vilas e cidades no Brasil colonial, onde no andar de baixo funcionava a cadeia e no andar de cima funcionava a câmara. Por causa de sua importância, geralmente edificações deste tipo eram localizadas em destaque nas praças centrais, como foi feito em Vila Flor. O estilo arquitetônico é colonial, assim como o da Igreja Matriz, e desta forma apresenta em sua fachada traços retos, simetria, janelas em ritmo, telhado com quatro águas e materiais simples como alvenaria de pedra e tijolos. Todavia, diferencia-se de outras construções do período por apresentar em 3 fachadas uma composição de arcos, que formam uma belíssima galeria em formato de "U" (PESSÔA). Infelizmente, seu interior foi totalmente destruído durante o período de abandono, sendo hoje impossível saber como era a edificação por dentro.

Este período de abandono da cidade, que começou em 1858, foi extremamente prejudicial para estas edificações. A Casa de Câmara e Cadeia, por exemplo, perdeu as grades das janelas da prisão, o telhado colonial e o piso do segundo andar. Além disso, foram construídas edificações aleatórias na praça histórica que modificaram a percepção da implantação da Igreja Matriz e do prédio administrativo na cidade. Felizmente, em 1964, as edificações históricas foram tombadas pelo IPHAN e na década de 80 foram restauradas. O projeto de restauro foi feito pela Fundação José Augusto e levou quase 4 anos para ser colocado em prática, e teve como objetivo retirar as edificações construídas aleatoriamente na praça, preservar e restaurar o patrimônio existente. De acordo com a Fundação Pró-Memória (1981), a restauração teve o apoio financeiro da SPHAN/ Pró-memória, através do Programa de Cidades Históricas - PCH e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano-CNDU, via Superintendência de Desenvolvimento do Norteste - SUDENE.

Estado da Casa de Câmara e Cadeia em 1931 - Fonte: Tok de História / Medeiros, 2018

Felizmente, em mais de 270 anos de história, a Igreja Nossa Senhora do Desterro encontra-se em bom estado de conservação e continua a ser utilizada como Igreja Matriz da cidade. Porém, a Casa de Câmara e Cadeia, apesar de encontrar-se em bom estado de conservação, não está sendo utilizada e encontra-se fechada para o público. Desta forma, é importante lembrar que uso e o respeito histórico são importantíssimos para a conservação dos bens patrimoniais e apenas desta maneira essas edificações conseguirão continuar contando a história através de sua arquitetura. A cidade de Vila Flor é extremamente importante para o Rio Grande do Norte e o Brasil e nós PRECISAMOS PRESERVAR NOSSO PATRIMÔNIO através do conhecimento e valorização dessas edificações.



 

Fontes:

Sites:

CEARÁ-MIRIM, Barão de. ENGENHO JUNCAU EM VILA FLOR - RN. Franciscoguiacm, Vila Flor, 12 mar. 2013. Disponível em: http://franciscoguiacm.blogspot.com/2013/03/engenho-juncau-em-vila-flor-rn.html . Acesso em: 31 mar. 2021.

FUNDAÇÃO PRÓ-MEMÓRIA (Brasil). Subsecretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - SPHAN (ed.). Rio Grande do Norte: Vila Flor, patrimônio em reconstrução. SPHAN - Pró Memória, Brasil, v. 1, n. 14, p. 1-3, out. 1981. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/Boletim_14.pdf . Acesso em: 31 mar. 2021.

GUIADETURISMOBLOG. HISTÓRIA DE VILA FLÔR/RN. Guiadeturismoblog, Vila Flor, 02 abr. 2016. Disponível em: https://guiadeturismoblog.wordpress.com/2016/04/02/historia-de-vila-florrn/ . Acesso em: 31 mar. 2021.

IPHAN (org.). Casa de Câmara e Cadeia: ruínas (vila flor, rn). Brasil: Iphan, 1964. (Livro Histórico). Inscrição:367. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/ans.net/tema_consulta.asp?Linha=tc_hist.gif&Cod=1828 . Acesso em: 31 mar. 2021

PESSÔA, José Simões Belmont. Casa de Câmara e Cadeia Vila Flor, Rio Grande do Norte, Brasil: equipamentos e infraestruturas. Patrimônio de Influência Portuguesa, Brasil. Disponível em: https://hpip.org/pt/heritage/details/916 . Acesso em: 31 mar. 2021.

PESSÔA, José Simões Belmont. Igreja de Nossa Senhora do Desterro Vila Flor, Rio Grande do Norte, Brasil: arquitetura religiosa. Patrimônio de Influência Portuguesa, Brasil. Disponível em: https://hpip.org/pt/heritage/details/917 . Acesso em: 31 mar. 2021.

PREFEITURA DE VILA FLOR. HISTORIA DE VILA FLOR/RN. Prefeitura de Vila Flor: Reconstruir e avançar, Vila Flor. Disponível em: http://vilaflor.rn.gov.br/pagina-exemplo/ . Acesso em: 31 mar. 2021.

Imagens:

DERNTL, Maria Fernanda. As Casas de Câmara e a construção do poder municipal. Resenhas Online, Brasil, 15 jul. 2016. Disponível em: https://vitruvius.com.br/index.php/revistas/read/resenhasonline/15.175/6105 . Acesso em: 31 mar. 2021.

MEDEIROS, Rostand. 1967 – VERDADE E LENDA SE MISTURAM NA HISTÓRIA DE CANGUARETAMA. Tok de História, Vila Flor, 25 maio 2018. Disponível em: https://tokdehistoria.com.br/tag/vila-flor/ . Acesso em: 31 mar. 2021.


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