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  • Foto do escritorJúlia Chaves

Projeto Cine Luiz de Barros

Um cinema na Ribeira


Júlia Chaves Nunes de Carvalho

Arquiteta e Urbanista, Mestre em Arquitetura e Conservação e Sócia efetiva do IHGRN.


No último artigo da Quinta Potiguar sobre a Casa Luiz de Barros (link aqui), destacamos a importância histórica e arquitetônica do edifício, além do seu atual estado avançado de deterioração. Agora, compartilho o projeto de conversão funcional, feito por mim, e que busca transformar o casarão em uma elegante sala de cinema e uma charmosa cafeteria no coração da Ribeira. O Projeto Cine Luiz de Barros adota uma abordagem que visa intervir minimamente na estrutura, preservando sua história e arquitetura originais enquanto a torna um espaço funcional e contemporâneo, além de um ponto cultural vibrante, acolhedor e potencialmente turístico. Aqui detalho o processo de concepção desse projeto tão significativo para mim e seu resultado final. Espero que a nova vida da Casa Luiz de Barros represente renovação e respeito pela história, fomentando assim o movimento de revitalização na Ribeira.


CONTEXTO HISTÓRICO E SITUAÇÃO ATUAL

Como explicado no artigo da Quinta Potiguar (link aqui), a edificação se encontra em um contexto urbano de extrema importância histórica e cultural para Natal e para o Rio Grande do Norte. A data de sua construção é incerta, mas existe uma hipótese em seu inventário que tenha sido erguida no período em que se popularizou a arquitetura eclética na cidade. No entanto, após análises próprias da arquitetura da edificação, que foram melhor detalhadas no texto da Casa Luiz de Barros (link aqui), combinadas com o contexto histórico de ocupação da Rua Chile, foi possível encontrar evidências de que a residência pode ter sido construída originalmente no estilo colonial, isto é, antes do período mencionado em seu inventário. Esta descoberta curiosa foi extremamente importante para o futuro desenvolvimento do projeto, como detalhado a seguir.

Infelizmente, a edificação encontra-se em estado crítico de conservação, com a estrutura interna totalmente perdida devido às dificuldades enfrentadas pelos proprietários para manter o edifício funcionando e conservado ao longo dos anos. E foi diante dessa situação que a família Barros, sob a liderança do Arquiteto Luciano Barros, passou a procurar viabilizar o projeto de restauro já existente e me contatou para o desenvolvimento de um projeto de conversão funcional. As necessidades do projeto, além da preservação do patrimônio edificado, visam uma homenagem ao antigo proprietário e dono de cinemas clássicos de Natal, transformando o edifício em uma sala de cinema.


PROJETO DE CONVERSÃO FUNCIONAL

Desta forma, o projeto foi iniciado. Seguindo o conceito de mínima interferência e após a analise da tipologia e dos elementos arquitetônicos originais que sugerem que o edifício provavelmente foi construído no estilo colonial, o projeto se baseou totalmente na retomada dessas raízes coloniais. Inicialmente, dividimos os espaços internos necessários para o funcionamento da sala de cinema conforme a tipologia residencial típica do período colonial, o que resultou na preservação de todas as aberturas originais, sem a necessidade de grandes intervenções na fachada. Além disso, optamos pela cor branca que referencia as tradicionais casas coloniais, cujas fachadas eram geralmente caiadas. As esquadrias originais foram mantidas e pintadas de verde para complementar a cor branca das paredes, destacando ainda mais a arquitetura original da edificação e adicionando um toque de cor.

Assim, o projeto do Cine Luiz de Barros contará com 3 setores, da mesma forma que as casas coloniais: o setor trabalho/social, o setor íntimo e o setor de serviço. No setor trabalho/social, localizado na esquina da Rua Chile com a Travessa Argentina, existem quatro portas originais que facilitavam o acesso a provável área comercial da edificação. No projeto, este setor abrigará áreas como a bilheteria, o foyer e os banheiros acessíveis, além de servir como entrada para a plateia acessar a sala de cinema, seja pelo mezanino ou pelo térreo. Estas funções atuais, assim como a originária, também precisam de fácil acessibilidade e por isso ocuparão esta localização.


No setor íntimo, onde em casas coloniais se encontravam os quartos, foi transformado no projeto em sala de cinema com capacidade para 55 lugares, posicionados de acordo com as normas vigentes de acessibilidade, palco, tela de projeção e sala de equipamentos. Neste ambiente, tirando proveito do pé direito alto original, resultante da pronunciada inclinação dos telhados coloniais, foi projetado um mezanino com mais assentos para o público, cuja ideia surgiu após a análise da presença de duas janelas, provavelmente adicionadas durante o período eclético, indicando que o edifício já teve um sótão.

No último setor, encontra-se o setor de serviço, posicionado na edificação adjacente que possivelmente era um quintal ou apoio da edificação principal. Nesse espaço está o café, que se conecta à saída da sala de cinema, mas que também utiliza a porta original da fachada da Travessa Argentina para ser acessado de forma independente e ainda com a possibilidade de ter mesas na calçada ao ar livre. Neste setor, também com acesso independente e ligação à sala de cinema, encontra-se a administração e a área dos funcionários, composta por depósito, vestiário acessível, copa e área de serviço.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


O projeto de conversão funcional da Casa Luiz de Barros, um importante patrimônio histórico e arquitetônico regional, para o Cine Luiz de Barros é uma iniciativa louvável da família Barros na busca da preservação da memória e da identidade cultural local. Agradeço pela confiança no meu trabalho, foi uma honra desenvolver este projeto. Ao revitalizar e converter o espaço em um cinema, não só se resgata o passado, mas também se oferece à comunidade um novo local de entretenimento e lazer. Essas práticas de requalificação são fundamentais para manter viva a história e fomentar a integração social. O Cine Luiz de Barros, além de poder se tornar um ponto de encontro para apreciar obras cinematográficas, pode iniciar um movimento de revitalização da Ribeira, consolidando-a como um centro cultural vibrante.

Por fim, é essencial ressaltar que todo o projeto foi inteiramente desenvolvido em conformidade com todas as normas vigentes, incluindo o Plano Diretor, o Código de Obras, a NBR 9050 de Acessibilidade, as Cartas Patrimoniais, entre outros. Essa abordagem demonstra que é perfeitamente viável reutilizar edifícios históricos para fins contemporâneos, ao mesmo tempo em que se preserva a arquitetura, história e cultura do local. Os arquitetos restauradores são especialistas dedicados a essa tarefa, tornando esse processo que a sociedade erroneamente considera algo impossível em algo acessível. Preservação do Patrimônio Histórico, funcionalidade e progresso podem coexistir harmoniosamente e para isso, não hesite em contratar um arquiteto!




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